Assim como qualquer outra arte, apreciar futebol não é uma coisa assim, que permanece sempre igual. Quem gosta de literatura tem sua época dos russos do século 19 e dos neorealistas italianos do século 20. Na música, depois de anos de Mozart chega a hora de aceitar Gustav Mahler. No futebol é a mesma coisa: tem aquela fase em que você gosta mais do jogo com três zagueiros ou com três volantes a Galeano. Todo mundo passa pela fase dos pontas e dos alas, aceitando como profissão de fé que só existe futebol nos lados do gramado. E pouca gente deixou de se render aos volantes que saem para o jogo. O Brás Cubas, do Machado de Assis, poderia ter sido técnico em vez de criar o emplastro. Ele entendeu por que o Felipão é o Felipão: o futebol, assim como a vida, não funciona com ideias fixas. Um dia você joga com o Dinho. Em outro time, você joga com o Alex.
Apesar disso, claro, todo torcedor tem um estilo predileto – assim como existem as pessoas que gostam mais de um tipo de música, de um estilo literário, de um grupo de diretores de cinema, o que não a impede de gostar, óbvio, de outras coisas, de apreciar outras canções. Uma torcida reúne torcedores com um jeitão parecido, que acreditam a maior parte do tempo nas mesmas coisas. O Palmeiras pode jogar com dois ou três zagueiros, mas é inadmissível que o zagueiro viva só de vontade, como é no time da marginal. Apreciamos camisas dez, sete ou trinta que gostem tanto de driblar o oponente quanto de flertar com o cartão vermelho. Talvez o palmeirense seja, antes de tudo, um regente de uma orquestra de música contemporânea, obssessivo em escutar a beleza extraída do caos. A música pode ser a Luxemburgo ou a Scolari.
Existem vários indícios, e o exemplo que mais me surpreende são os jogos de formação, os jogos que você assiste e começam a formar seu caráter, seu jeito de torcer, quando você percebe claramente a diferença entre Evair e os outros centroavantes, entre César Sampaio e todos os outros camisas cinco. E faz isso sem refletir: apesar de todos os comentaristas dizerem que eles lembram fulano, ciclano ou beltrano, você sabe intuitavemente que eles são diferentes, que são melhores em uma série de fatores que só são importantes para a torcida do Palmeiras. Valdivia e Kleber são só dois casos recentes de uma história farta. Marcos é a exceção.
Volto aos jogos de formação. Dia desses, durante o programa do Fanfulla, na rádio Estação Palestra, o Conrado fez uma enquete sobre os jogos mais marcantes de cada um dos participantes. Quase todo mundo citou uma partida em que o Palmeiras tinha jogadores espetaculares e que teve alguma confusão ou as condições eram adversas. Se fosse a torcida do time do Jardim Leonor, certamente teriam citado a goleada do Palestra sobre o Boca Juniors – mas, não. O jogo mais citado foi a final de 1993, que apresentou o Palmeiras para uma geração de torcedores. Foi um jogo que definiu gostos: centroavante bom lembra Evair, volante, Sampaio, zagueiro, Antonio Carlos. E jogo histórico tem confusão, jogador expulso e uma boa dose de pimenta. Assim como para meu pai nunca houve um centroavante como Cesar e, para meu avô, um goleiro a exemplo de Oberdan. Para meu avô, o maior jogo do Palmeiras não foi um dos tantos da academia, mas a partida de 1942 na qual o Palestra manteve seu estádio, quando mudou de nome, E, para a minha irmã caçula, Valdivia é inseparável da camisa dez. E jogo de formação, a semifinal contra o Unidos Vila Sônia, no Paulista de 2008.
São jogadores que não importa onde eles jogaram antes ou depois – eles sempre serão identificados com o Palmeiras. Assim como Marlon Brando é o eterno Don Corleone, Edmundo sempre será o Animal e Ademir, o Divino. As partidas, por mais diferentes que sejam entre si, por mais que aconteçam em épocas diferentes, com times que às vezes não tem nada de parecido um com outro, preservam alguma coisa de clássico. Você vê e simplesmente sabe que são inesquecíveis. Nos dois casos, jogadores e jogos, eles formaram gostos porque se encaixam perfeitamente neste mosaico que é o Palmeiras que, com toda a sua diversidade, permanece verde e branco ao som insistente das cornetas e dos aplausos. O Palmeiras continua formando gerações de torcedores porque também não tem medo de mudar.



