Uma das minhas amigas, uma garota de Taiwan, me perguntou como eram as aulas compulsórias de futebol no Brasil. Eu olhei para ela, surpreso, sem saber se o problema era o meu inglês ou o inglês dela. Repliquei: Como assim, aulas compulsórias? Ela disse: Aulas compulsórias. Como vocês jogam futebol tão bem no Brasil sem aulas compulsórias nas escolas? Nós não temos aulas compulsórias de futebol nas escolas, expliquei. Dessa vez, foi ela quem imitou a minha expressão de quem não sabe se o problema é o inglês dela ou o meu. Futebol, currículo, governo, essas coisas. Futebol não é disciplina? Não. Como vocês ganharam cinco Copas do Mundo sem aula no currículo? Então eu expliquei para ela que, no Brasil, as pessoas simplesmente jogam futebol. Em muitas famílias, os almoços de domingo são marcados antes dos jogos das 16h. As pessoas jogam futebol depois do trabalho. Os pais incentivam as crianças a chutar tudo que é redondo e se mexe. Ela continuou sem entender. Ninguém disse que é fácil explicar – nem que tem explicação.
O futebol não é apenas o esporte mais popular do Brasil. É o esporte mais popular do mundo. Faixa de Gaza? Tem alguém jogado bola, apesar dos mísseis. China? A derrota para o Iraque em 2008, quando o país perdeu a chance de jogar a Copa de 2010, é um dos (poucos) traumas recentes do país. Estados Unidos? Eles dizem que não, mas pararam para ver os jogos do time na Copa do Mundo. Faltam livros que expliquem por que 22 pessoas correndo atrás de uma bola atraem a atenção de bilhões de pessoas ao redor do planeta. “A Dança dos Deuses”, de Hilário Franco Junior, é um livro de hipóteses. Professor de História Medieval da Universidade de São Paulo, Hilário resolveu usar o conhecimento de cátedra para escrever sobre uma paixão de menino. O livro é rigoroso no método, mas é (bem) escrito, em português, e não naquela língua um tanto exótica que alguns acadêmicos usam para se expressar com o mundo. Além disso, é honesto, uma qualidade rara. Hilário explica na introdução que seu objetivo não era oferecer uma explicação definitiva para a paixão que o futebol cultiva. O objetivo era levantar hipóteses. O livro não só cumpre o prometido como entrega muito mais do que promete. Mais ou menos como o Valdívia, que prometia devolver os dribles perdidos ao Palestra e trouxe, no pacote, passes desconcertantes (vide o gol de Sandro Silva contra o Flamengo, em 2008) e comemorações de despertar palestrinidades adormecidas. É uma boa surpresa, afinal.
O livro discute as diferentes versões para a origem do futebol, das cabeças chutadas às medidas “mágicas” do gramado. Explica a relação entre os nomes dos times e a comunidade que eles representam, ao menos a comunidade que eles representavam quando foram fundados. O Arsenal, de Londres, era o time dos trabalhadores da indústria bélica. O Milan, da Itália, não se chama Milano à toa: foi fundado por donos ingleses para entreter seus funcionários italianos. Hilário também relata como as rivalidades vão muito além dos gramados. O Real Madrid era o time da ditadura de Franco e recebeu generosos recursos públicos para se tornar o símbolo da Espanha unificada. Certa vez, num jogo contra o Barcelona (que tinha um time melhor), o juiz recebeu, digamos assim, instruções para não prejudicar o Real Madrid. A situação foi tão vexatória que o Barcelona simplesmente parou de jogar quando se deu conta da maracutaia. Os jogadores ficaram parados, cada um na sua posição, inertes, em protesto. O jogo foi interrompido antes do apito final e gerou uma crise política no país. Na Escócia, Celtic e Rangers ainda hoje reavivam as tensões entre católicos e protestantes. Na Rússia, os times atuais são herdeiros das equipes formadas pela ditadura soviética. O CSKA, do Vagner Love, era o time do Exército russo, por exemplo.
Soltas, essas histórias parecem peças de almanaque. São legais, mas não fazem muito sentido. Juntas, elas ajudam a entender por que, segundo o autor, o futebol é uma metáfora da vida. O futebol é uma língua, tem elementos de religião, desperta as nossas paixões mais profundas. O livro de Hilário ajuda a entender por que nos referimos ao futebol dessa maneira. Tão imperfeito como a vida, o futebol é um jogo que nos faz mais humanos, se isso é possível. Por isso, ainda no campo das hipóteses, é tão difícil de ser explicado e tão delicioso de ser vivido.