MUNDIAL INTERCLUBES – A CHEGADA

Postado em: Colunas | por: Luiz Mousinho | quando: 8 de janeiro de 2011 |

Amigos, vamos deixar de lado um pouco a política do clube e nos deliciar com a íntegra do texto escrito por Dorival Bertaglia, testemunha ocular da chegada dos jogadores palmeirenses após vencerem o título mundial de 1951.

A emoção do texto e o clima narrado por Dober, como Dorival é conhecido, não deixam dúvida de quem é o primeiro clube brasileiro campeão mundial.

“MUNDIAL INTERCLUBES – A CHEGADA

Por Dorival Bertaglia*

O personagem desta história não sou eu, é meu nono – o velho Chico – a quem quero render aqui minhas homenagens por tudo que fez por mim e pelo fato de ter me tornado palmeirense. O outro personagem é o Palmeiras, claro!

Corria o ano de 1951. Eu tinha 11 anos. O Palmeiras já tinha vencido o campeonato paulista de 1950 – o do Ano Santo – e estava embalado por essa conquista, com um excelente plantel. Esclareço que não existia à época campeonato brasileiro; então a conquista do paulista era o píncaro.

O cenário em que vivia era o Brás, próximo ao Largo da Concórdia, onde residia com meus pais e meus avós; lá, à época, contado um a um, de cada 100 colegas, 90 eram palmeirenses, alguns corinthianos e dois são paulinos. Famílias de operários que acordavam muito cedo, jantavam pelas 18:00 horas, mas que não dispensavam a conversa entre os vizinhos após o jantar; longos papos sentados em cadeiras colocadas nas calçadas e sempre acompanhadas com alguma música. Flautas e bandolins enchiam de melodias nossos ouvidos.

O desastre da Copa do Mundo de 1950 ainda estava machucando todos os brasileiros, ainda mais que não tínhamos nenhuma grande conquista em qualquer esporte até aquela época. A Copa Rio ia ser disputada e os oitos clubes representavam o que havia de melhor no futebol mundial; seriam duas chaves – uma em São Paulo e outra no Rio de Janeiro. O Palmeiras, como campeão paulista, faria parte da sede paulista junto com a Juventus da Itália, o Estrela Vermelha da Iuguslavia e o Olimpic da França. No Rio ficariam Vasco da Gama – como campeão carioca de 1950 – o Sporting de Portugal, o Austria Viena e o Nacional, que representava o país campeão do mundo do ano anterior – o Uruguai.

O Palmeiras, depois de duas vitórias caiu frente a Juventus, potência mundial, considerado por todos, o favorito para ganhar a Copa. Mesmo assim fomos para o Rio, classificados em segundo na chave paulista para a disputa da fase final da competição. Teríamos que enfrentar o Vasco da Gama – primeiro da outra chave. Parênteses – o Vasco era a própria seleção brasileira. Dos onze jogadores, 9 eram do Vasco. Ganhamos a primeira partida por 2×1, empatamos a segunda – 0×0 e fomos para a final. Contra quem? A Juventus da Itália; ela mesmo!!! A que nos tinha sapecado de 4 x 0 na primeira fase e no Pacaembu. Tínhamos que disputar dois jogos contra a Juventus. No Maracanã! Resultado: ganhamos a primeira de 1 x 0 em 18 de julho e empatamos a segunda quatro dias depois- 2 x 2 – gols de Rodrigues – o Tatu e de Liminha – este gol quase matou o nono Chico….e a mim. Estávamos ouvindo a Rádio Panamericana na sala de casa.

PALMEIRAS – CAMPEÃO MUNDIAL INTERCLUBES – O PRIMEIRO!
LAVAMOS A HONRA DOS BRASILEIROS

Gostaria de fazer alguns comentários sobre o público que assistia a final no Maracanã; Foram 100.933 pagantes, dos quais mais de 40.000 palmeirenses que se dirigiram para o Rio; foram de todo o Brasil, mas principalmente de São Paulo. Esta sim, foi a maior invasão que o Rio de Janeiro assistiu. Muito maior que a invasão corinthiana! Por que? Porque a população era muito menor que na década de 70; porque não existia a indústria automobilística no Brasil; porque raras pessoas possuíam veículos e os meios de transporte eram muito mais precários que à época da festejada invasão corinthiana. De resto fica o agradecimento eterno aos vascaínos que, pela segunda vez na existência dos dois clubes, nos deram o suporte de torcida para alcançarmos o objetivo tão almejado; a primeira foi em 1942 quando quiseram roubar o Parque Antártica, como é de conhecimento geral.

A chegada dos jogadores palmeirenses – Fabio – Salvador – Juvenal e Dema – Túlio e Luis Villa – Lima, Ponde de Leon, (Canhotinho), Liminha, Jair e Rodrigues, mais os seus reservas se deu na Estação Roosevelt, também conhecida como Estação do Norte, próximo ao Largo da Concórdia, muito próximo onde eu morava.

Anoitecia no dia da chegada quando o velho Chico me pegou pela mão e lá fomos nós ver a chegada dos campeões do mundo. E o que vimos? Milhares e milhares de pessoas emocionadas, cada uma com uma folha de palmeira acenando – parecia uma procissão de ramos, o domingo que antecede a Páscoa. Como nosso símbolo é o periquito, muitos pegaram galos e os pintaram de verde, levantando-os sobre a multidão e dizendo que o periquito tinha virado galo. Muitos fogos! Raros deixaram de verter lágrimas.

Como o velho Chico era muito entrão – ele já tinha se jogado em cima do vagão do trem quando o Sacadura Cabral tinha vindo a São Paulo para ser homenageado – depois de cruzar o Atlântico – eu e ele, ou melhor, ele e eu fomos varando a multidão e consegui ficar na frente do Lima e do Luis Villa.

Quase morri de emoção de novo. Dali seguimos a carreata e a andata por inúmeras ruas de São Paulo até o Parque Antártica e por onde a delegação passava era só festa, folhas de palmeiras, galos pintado de verde, papel picado e muitos fogos. Um verdadeiro carnaval em julho.

Bem, para finalizar, devo dizer que aquela noite eu não consegui dormir. Mas valeu!!!!!!! E valeu muito!!!!!”

* Dorival Bertaglia, palmeirense há 70 anos, membro do grupo Fanfulla, testemunha ocular da chegada dos jogadores palmeirenses após o título mundial de 1951.

A Dança dos Deuses

Postado em: Blog | por: Leandro Beguoci | quando: 29 de julho de 2010 |

Uma das minhas amigas, uma garota de Taiwan, me perguntou como eram as aulas compulsórias de futebol no Brasil. Eu olhei para ela, surpreso, sem saber se o problema era o meu inglês ou o inglês dela. Repliquei: Como assim, aulas compulsórias? Ela disse: Aulas compulsórias. Como vocês jogam futebol tão bem no Brasil sem aulas compulsórias nas escolas? Nós não temos aulas compulsórias de futebol nas escolas, expliquei. Dessa vez, foi ela quem imitou a minha expressão de quem não sabe se o problema é o inglês dela ou o meu. Futebol, currículo, governo, essas coisas. Futebol não é disciplina? Não. Como vocês ganharam cinco Copas do Mundo sem aula no currículo? Então eu expliquei para ela que, no Brasil, as pessoas simplesmente jogam futebol. Em muitas famílias, os almoços de domingo são marcados antes dos jogos das 16h. As pessoas jogam futebol depois do trabalho. Os pais incentivam as crianças a chutar tudo que é redondo e se mexe. Ela continuou sem entender. Ninguém disse que é fácil explicar – nem que tem explicação.

O futebol não é apenas o esporte mais popular do Brasil. É o esporte mais popular do mundo. Faixa de Gaza? Tem alguém jogado bola, apesar dos mísseis. China? A derrota para o Iraque em 2008, quando o país perdeu a chance de jogar a Copa de 2010, é um dos (poucos) traumas recentes do país. Estados Unidos? Eles dizem que não, mas pararam para ver os jogos do time na Copa do Mundo. Faltam livros que expliquem por que 22 pessoas correndo atrás de uma bola atraem a atenção de bilhões de pessoas ao redor do planeta. “A Dança dos Deuses”, de Hilário Franco Junior, é um livro de hipóteses. Professor de História Medieval da Universidade de São Paulo, Hilário resolveu usar o conhecimento de cátedra para escrever sobre uma paixão de menino. O livro é rigoroso no método, mas é (bem) escrito, em português, e não naquela língua um tanto exótica que alguns acadêmicos usam para se expressar com o mundo. Além disso, é honesto, uma qualidade rara. Hilário explica na introdução que seu objetivo não era oferecer uma explicação definitiva para a paixão que o futebol cultiva. O objetivo era levantar hipóteses. O livro não só cumpre o prometido como entrega muito mais do que promete. Mais ou menos como o Valdívia, que prometia devolver os dribles perdidos ao Palestra e trouxe, no pacote, passes desconcertantes (vide o gol de Sandro Silva contra o Flamengo, em 2008) e comemorações de despertar palestrinidades adormecidas. É uma boa surpresa, afinal.

O livro discute as diferentes versões para a origem do futebol, das cabeças chutadas às medidas “mágicas” do gramado.  Explica a relação entre os nomes dos times e a comunidade que eles representam, ao menos a comunidade que eles representavam quando foram fundados. O Arsenal, de Londres, era o time dos trabalhadores da indústria bélica. O Milan, da Itália, não se chama Milano à toa: foi fundado por donos ingleses para entreter seus funcionários italianos. Hilário também relata como as rivalidades vão muito além dos gramados. O Real Madrid era o time da ditadura de Franco e recebeu generosos recursos públicos para se tornar o símbolo da Espanha unificada. Certa vez, num jogo contra o Barcelona (que tinha um time melhor), o juiz recebeu, digamos assim, instruções para não prejudicar o Real Madrid. A situação foi tão vexatória que o Barcelona simplesmente parou de jogar quando se deu conta da maracutaia. Os jogadores ficaram parados, cada um na sua posição, inertes, em protesto. O jogo foi interrompido antes do apito final e gerou uma crise política no país. Na Escócia, Celtic e Rangers ainda hoje reavivam as tensões entre católicos e protestantes. Na Rússia, os times atuais são herdeiros das equipes formadas pela ditadura soviética. O CSKA, do Vagner Love, era o time do Exército russo, por exemplo.

Soltas, essas histórias parecem peças de almanaque. São legais, mas não fazem muito sentido. Juntas, elas ajudam a entender por que, segundo o autor, o futebol é uma metáfora da vida. O futebol é uma língua, tem elementos de religião, desperta as nossas paixões mais profundas. O livro de Hilário ajuda a entender por que nos referimos ao futebol dessa maneira. Tão imperfeito como a vida, o futebol é um jogo que nos faz mais humanos, se isso é possível. Por isso, ainda no campo das hipóteses, é tão difícil de ser explicado e tão delicioso de ser vivido.